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As Gavetas da Mem├│ria

A propósito da pessoa que deu o nome “Casa do Médico”, escreveu F. Costa Andrade o artigo para a revista Almocreve – Carção

AS GAVETAS DA MEMÓRIA

Os que, por obras valorosas,

Se foram da lei da morte libertando.

Por mérito próprio, a “Almocreve” tornou-se uma referência no panorama cultural de Trás-os-Montes, sendo já um valor incontornável na divulgação dos valores da nossa terra.

Depois dos primeiros números, como que de apresentação e projecto de intenções, cresceu rápida e segura e hoje, seguramente, podemos dizer que, com esta equipa, o limite só poderá ser o universo.

Porque a dimensão dum povo, tanto como na grandeza dos seus feitos, se cimenta também na preservação da sua memória, iniciamos esta nova secção tentando, através dela, perpetuar a memória dos muitos filhos de Carção que, pelo seu valor e mérito, tanto contribuíram, por esse mundo além, para o prestígio da sua terra.

Mais que qualquer outra secção da revista, esperamos que esta seja uma secção aberta a tudo e a todos, tentando construir assim uma enorme galeria de ilustres antepassados nossos, que se tenham distinguido nos mais variados ramos da actividade humana.

Dr. Manuel Maria Lopes

O Dr. Manuel Maria Lopes, conhecido sobretudo como o Dr. Lopes ou, para os mais velhos como o “ Dr. da Antoninha”, nasceu em Carção no já longínquo dia 13 de Junho de 1894.

Oriundo de famílias abastadas, teve o privilégio, naqueles tempos muito raro, de poder estudar.

Com elevada classificação, tirou o curso secundário no Liceu de Bragança, concluindo depois, em 1918, a licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina do Porto, cidade onde, de imediato, começou a exercer a medicina, voltado para a especialidade de otorrinolaringologia.

Fogoso e impulsivo, cedo concluiu que, entre as quatro paredes dum consultório médico, dificilmente poderia dar largas à sua ambição.

Estávamos numa época de muita emigração para a América do Sul, feita quase exclusivamente através de grandes navios, sobretudo franceses, ingleses e alemães que, em condições por vezes muito duras, para lá transportavam milhares de pessoas.

Sem hesitar, alistou-se na marinha Mercante onde, conforme ouvi dele próprio, exerceu a medicina em condições por vezes dramáticas, não raro operando sem assistente nem enfermeiro, sem esterilizadores, analgésicos ou instrumental adequado.

Foi este grande tirocínio que fez dele um dos médicos mais brilhantes da sua geração.

Por razões familiares teve de abandonar a Marinha Mercante.

Depois duma breve passagem por Murça, onde casou e abriu consultório, regressou a Carção por volta dos anos de 1930/12931.

Na plena posse de todas as suas faculdades, dedicou-se então ao exercício da medicina na sua terra natal em acumulação, durante muitos anos, com as funções de Médico Municipal, resistindo sempre aos convites que lhe fizeram para voltar ao Porto.

Durante mais de cinquenta anos, quando Carção era a única aldeia das redondezas a ter o luxo dum médico residente, passou-lhe pelas mãos quase todo o concelho de Vimioso.

Atrás do seu aspecto austero, escondia-se um grande profissional, extraordinariamente competente, dedicado e prestável, que atendia com igual carinho e respeito todos os que o procuravam, fosse o homem mais importante, ou a mais humilde criança.

Quando vencia as barreiras da sua introversão, era um gosto ouvi-lo contar as histórias da sua vastíssima experiência, revelando-se um conversador emérito, possuidor duma cultura vastíssima e, ao mesmo tempo, um homem sensível, generoso e bom.

Como homenagem de gratidão, quero relembrar hoje um dia, em meados de Setembro de 1954, em que, pela primeira vez, entrei no seu consultório.

Naquele tempo, ninguém podia ir estudar sem apresentar um atestado de boa saúde.

Por ordem de meu pai, fui ao soto do meu primo Gabriel comprar uma folha de papel azul ( custava nesse tempo trinta centavos) e pedir emprestados, creio que vinte escudos, que era o que levavam os médicos para passar os atestados.

Quando, depois de me atender, perguntei quanto era, olhou para mim com um olhar profundo de muito carinho, respondendo-me apenas:

- Não é nada, meu rapaz, mas ficas a dever a obrigação de estudar para ser alguém.

Dá o dinheiro ao teu pai, que a vida não está fácil e desejo-te muita e muita sorte.

Durante os muitos anos que ainda viveu, sempre que nos encontrava-mos na oficina de meu pai, de que era cliente assíduo para tratar do seu calçado ou dos arreios da sua gigantesca burra castanha, à mistura com os seus sábios conselhos, de tanto saber e experiência feitos com um mal disfarçado sorriso, vinha sempre a lembrança da dívida contraída naquele Setembro de 1954.

Reformado em 1969, por limite de idade, mais por amizade e vocação, continuou fiel ao juramento de Hipócrates até falecer em 1983, sendo sepultado no jazigo de família no cemitério da terra que o vira nascer.”

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